Friday, February 18, 2011
Eurico Cebolo
Nasceu em 28 de Outubro de 1938, na aldeia de Coleja, junto ao rio Douro, pertencente à freguesia de Seixo de Ansiães, no concelho de Carrazeda de Ansiães, na região de Trás-os-Montes, em Portugal.
Estudou gratuitamente no Porto, no colégio João de Deus, em virtude da sua facilidade de aprendizagem e da escassez de recursos financeiros da sua família. Nessa altura, apresentava já gosto pela escrita e desenhava histórias aos quadradinhos, que depois vendia aos colegas com mais posses.
Aos 15 anos de idade, foi trabalhar no lagar de uma quinta, pisando uvas, como forma de juntar dinheiro. Usou parte desse dinheiro para comprar uma guitarra portuguesa antiga e estragada, que viria a recuperar. Poucos dias depois, tocava já de ouvido em bailes de aldeira, tendo começado nessa altura a registar escalas e letras populares em papel.[1]
Quando Eurico tinha 16 anos, a sua família foi viver em Moçambique. Aí, começou a aprofundar o estudo da música. Tornou-se, para além de músico, também compositor, tendo criado diversas músicas e letras para orquestras do Rádio Clube de Lourenço Marques.
Alguns anos mais tarde, em 1962, participou no festival hispano-português em Aranda de Duero, no qual viria a obter o prémio para a melhor canção portuguesa. No anos que se seguiram, ganhou mais cinco prémios em Espanha e em Moçambique.
Em 1975, durante um período de férias em Portugal, sofreu um acidente de automóvel, tendo chocado um camião contra o carro em que seguia. Seu primo, que conduzia o carro, acabaria por falecer. Eurico perdeu 50% dos movimentos da mão direita, em consequência do acidente, o que trouxe o fim à sua carreira de músico de concerto.
Lançou o disco "Natal mágico", no qual tocava em sintetizador a parte orquestral das 20 canções incluídas.
Em 1976, lançou o primeiro manual de música de sua autoria, "Guitarra Mágica: Acordes".[1]
Ao longo dos anos, publicou, por conta própria, numerosos livros dedicados ao ensino da música e dos instrumentos musicais, em Português, Francês e Inglês. Publicou também diversos romances de teor erótico.
Em 1999, a canção "Lisboa, Lisboa, Lisboa...", com letra e música de sua autoria, venceu o concurso da grande Marcha de Lisboa. No ano seguinte, a sua canção "Lisboa do Ano 2000" venceu também o mesmo certame.
Atualmente, possui uma loja de música na Rua da Boavista, no Porto, onde continua a receber os seus clientes. Em 2011, tinha publicado ao todo 61 livros, sendo 51 deles manuais de música e 10 deles romances, mantendo planos de ainda vir a publicar mais obras.[1]
[editar] Obras
[editar] Ensino da música
* "Guitarra Portuguesa Mágica", Edição do autor, Porto
* "Guitarra Mágica", Edição do autor, Porto, 1979
* "Piano Mágico", Edição do autor, Porto
* "Órgão Mágico", Edição do autor, Porto
* "Tocar Bateria", Edição do autor, Porto
* "Música Mágica", Edição do autor, Porto
* "Flauta Mágica", Edição do autor, Porto
* "Acordeão Mágico", Edição do autor, Porto
* "Método Mágico: cavaquinho e viola braguesa", Edição do autor, Porto
* "Solfejo Mágico", Edição do autor, Porto
* "Teoria Mágica Musical", Edição do autor, Porto
* "Álbum Mágico: 44 canções", Edição do autor, Porto
* "Tocar bandolim", Edição do autor, Porto
* "Saber Música", Edição do autor, Porto
* "Tocar Concertina", Edição do autor, Porto
* "Planeta Mágico Musical", Edição do autor, Porto
* "Tocar guitarra baixo", Edição do autor, Porto
[editar] Romances
* "A Filha do Padre", Edição do autor, Porto
* "A Santa Assassina", Edição do autor, Porto
* "A Prostituta Virgem", Edição do autor, Porto
* "Incesto Sem Pecado", Edição do autor, Porto
* "Matavam as Freiras Grávidas", Edição do autor, Porto
* "Cruz de Fogo", Edição do autor, Porto
* "Maldição Cigana", Edição do autor, Porto
* "O Violador das Mortas", Edição do autor, Porto
* "Falo Perdido", Edição do autor, Porto
* "Casei com a Minha Irmã", Edição do autor, Porto
in Wikipedia
Segunda-feira, 27 de Janeiro de 1975
Eurico A. Cebolo, compositor, professor e dono de uma loja de instrumentos em Lourenço Marques, goza o último dia de férias em Portugal. A revolução tornou muito difícil a vida dos portugueses em Moçambique e Cebolo veio ao Porto preparar o seu regresso. Alugou um armazém velho na Rua da Boavista para onde tencionava trazer os seus instrumentos, montar uma escola e continuar a tocar. A mudança acabaria por acontecer, mas não da maneira como o autor da série de bestsellers (e longsellers) didácticos "Órgão Mágico" e "Guitarra Mágica" tinha previsto.
Nesse dia, um camião desgovernado embate no carro onde Cebolo viajava com dois primos. O condutor morre e Eurico, então um músico respeitado em Moçambique, fica gravemente ferido. Acorda no hospital sem conseguir mexer o lado direito do corpo. Ficou assim durante um ano, a recuperar lentamente. O diagnóstico dos médicos foi imperativo: Eurico não podia voltar a tocar. "Aquilo deixou-me muito em baixo e os meus pais não me ajudaram em nada", lembra sem amargura. "Queriam que eu fosse para a aldeia ter com eles, não o fizeram por mal."
A sabedoria popular diz que um mal nunca vem só, mas outro ditado assegura que depois da tempestade vem a bonança. Para Cebolo, esta lenta recuperação solitária não era a véspera de dias melhores - era apenas o olho do furacão. Porque entretanto, em Moçambique, começavam os problemas dos quais tinha planeado fugir. "Iniciam-se as lutas e eu doente cá. O estado nacionaliza as empresas e congela as contas dos bancos. Perdi tudo o que tinha. Tudo."
Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
Eurico Augusto Cebolo recebe-nos na Musicarte, loja de instrumentos na Rua da Boavista, Porto. Tem anúncios à porta, como todas as lojas de música - "banda pop rock procura vocalista que saiba cantar" -, guitarras penduradas na parede, tipo troféus de caça, e um expositor com pautas de Def Leppard e cassetes VHS que prometem ensinar a tocar "teclados". A distinguir esta de outras lojas do género estão os versos espalhados pelas vitrinas - "Guitarras aos pontapés/Encontra em todo o lado/Mas para não sofrer revés/Veio aqui, obrigado", rematados com a assinatura: "A Musicarte gosta de o ver novamente" ou "A Musicarte admira-o pelas suas qualidades". São versos e frases de Cebolo.
O professor está a atender clientes ao balcão. Anónimo, discreto, o homem que assinou clássicos como "Órgão Mágico", "Teoria Mágica Musical" ou "Tocar Bateria", livros folheados por pelo menos duas gerações de aspirantes a músicos, toma conta do seu negócio. Interrompe o que está a fazer para nos guiar até um pequeno escritório. Atrás dele vai Cipó, uma cadela pastor-alemão com 15 anos e os olhos esbranquiçados pelas cataratas.
Foi naquela sala de cerca de três metros quadrados que foram feitos os 61 livros que publicou, todos eles edições de autor - 51 manuais de música, dez romances. "Quase toda a gente aprendeu a tocar pelos meus livros. Depois aqueles que se dão bem seguem para conservatórios ou escolas avançadas", conta.
Eurico Cebolo perdeu a conta ao número de exemplares vendidos, mas há poucas dúvidas de que é o autor sem editora que mais livros vendeu em Portugal. As edições, impressas pela Gráficos Reunidos, no Porto, não são numeradas e apenas voltam à estampa quando uma ou outra se esgota. Cebolo lembra os anos 80 e a loucura à volta do "Órgão Mágico", de que chegava a vender 15 mil exemplares por ano, numa altura em todos os garotos tinham ou queriam ter um órgão Casio; ou "Guitarra Mágica", livro que está para a biblioteca musical dos portugueses como o quadro do menino que chora para a decoração das nossas salas. "Agora os de órgão e acordeão vendem--se menos - será da crise, não é verdade? Mas os de guitarra continuam a ter muita saída."
Os livros são todos feitos - Cebolo usa a palavra "compostos", como com as músicas - naquela sala, pelo próprio Eurico, ao computador. É ele que trata de paginação, textos, ilustrações e pautas. A única altura em que há interferência exterior é quando o livro está pronto e vai para a gráfica. "No início fazia tudo à mão, desenhava as escalas de guitarra e só tinha alguma ajuda para os diagramas. Mais tarde comprei uma máquina de escrever música, uma Olympus americana que fui buscar à Alemanha. Depois, quando tive o primeiro computador, comecei a usar software de escrever música."
O primeiro livro saiu em 1976, "uma coisa muito simples e útil que ainda hoje se vende muito, ''Guitarra Mágica: Acordes''". Cinquenta outras obras se seguiram, e o compositor está apostado em ultrapassar a marca de 55 livros publicados. Estão na calha mais cinco, desta vez dedicados à guitarra portuguesa.
"Estes livros foram a maneira que eu arranjei de me sentir realizado depois do que aconteceu." Depois do acidente.
Capas de colecção
Eurico guia-nos pelas pastas do seu computador e mostra os livros já paginados - mais uma vez, "compostos" - e passa em revista algumas das obras mais recentes, como a colecção "Musicantos", com músicas para acordeão. E mostra-nos as capas: "Esta aqui são rosas, porque é um livro de tangos. Está a ver: tangos-rosas? Esta outra são uns medronhos que eu apanhei na minha terra." Sim, as capas da colecção de música assinada por Eurico A. Cebolo são produzidas pelo próprio, no mesmo número 80 da Rua da Boavista onde compõe, vive e trabalha.
"As capas eram extraordinárias. A do ''Piano Mágico'' era um pastor-alemão de patas dianteiras em cima das teclas. Que melhor imagem para transmitir a ideia de que qualquer um pode tocar piano?", comentou o humorista Nuno Markl na rubrica da Rádio Comercial "Caderneta de Cromos". Esse cão já não é vivo, mas o piano ainda lá está. Assim como outros objectos das várias edições mágicas. Mas a melhor de todas nunca saiu.
"Era uma com uma raposa, a Sabu, e um cavaquinho. Mas ela - ele, era um macho - não conseguia ficar quieta. Às tantas tocou com a pata nas cordas e fugiu assustada", lembra Cebolo. Mas antes de desistir da carreira de modelo a raposa que toda a gente conhece naquele barro ainda aparece em duas capas da colecção Música Mágica.
"Ia a passar de carro por Gondomar e vejo à beira da estrada um homem com duas raposas. Ia afogá-las num tanque para depois vender a pele. Perguntei-lhe quanto lhe davam pela pele: dois contos e quinhentos cada. Vai daí dei-lhe cinco contos e fiquei com os dois bichos. Domestiquei a Sabu, mas quando ela já estava ambientada fugiu pelo terraço. Pensei que nunca mais a ia ver, mas nessa mesma noite ela regressa a casa e vai enfiar--se na minha cama." Cebolo e Sabu tornaram-se inseparáveis. "Ia para todo o lado comigo, na rua, no café, as pessoas julgavam que era uma espécie muito rara de cão", ri-se.
Um manual automático
Anthony Diegter, músico belga que dá aulas particulares de guitarra e piano há mais de dez anos em Portugal, descobriu os livros de Eurico Cebolo quando começou a ensinar. "Os meus alunos falavam-me de uns manuais muito bons, que outros miúdos usavam", conta. "Quando vi aquilo fiquei assustado, mas depois de olhar com atenção reparei que os livros eram feitos com muito cuidado, cheios de pormenores." E têm uma virtude: "Ensinam realmente a ler música, ao contrário de muitos supostos manuais que prometem transformar-te num artista em cinco lições."
O sucesso do método Cebolo é explicado assim pelo próprio mestre: "É que eu abuso nas explicações." E tenta tornar tudo mais simples, "porque isto da música é uma coisa muito fácil", remata. É mesmo?
Descascar o Cebolo
Eurico Augusto Cebolo nasceu a 28 de Outubro de 1938 na aldeia de Coleja, em Carrazeda de Ansiães. Descreve a sua família como "de poucas posses" e a relação com o seu pai como "difícil". Mas foi graças a ele que começou a ouvir o fado muito novo. "O meu pai tocava guitarra a acompanhar o fado, era músico animador. Quero dizer, amador. Não, espera lá, ele era mesmo animador [risos]. Teve duas casas de fados aqui no Porto e era muito popular. Ficou-me o bichinho da música." No entanto, o pai de Eurico nunca incentivou a vocação do filho: "Lembro-me que no dia em que comprei o meu primeiro acordeão, tinha 18 anos, ele me pôs fora de casa."
Nessa altura Eurico Cebolo já tinha aprendido a tocar guitarra sozinho. Aos 15 anos foi pisar uvas para o lagar de uma quinta para juntar dinheiro. Em seguida comprou a um taberneiro uma guitarra portuguesa velha e estragada por 100 escudos, instrumento que tratou de recuperar.
Passados dez dias já tocava nos bailes de aldeia - "mas tudo de ouvido". Foi quando começou a desenhar escalas em papel, a numerar os trastos e a escrever "letras populares". Estava a nascer o celebrado método de Eurico Cebolo.
Mas um mestre, professor e autor de livros traduzidos em três idiomas, não chega onde chegou sem ter aulas. Mais especificamente, quatro aulas. "E de uma hora cada", recorda. "A professora deu- -me quatro lições e depois mandou-me embora, dizia que não tinha mais nada para me ensinar." A aventura de Cebolo no ensino privado de música não termina aqui. "Voltei lá uns tempos depois, mas para dar aulas." E repete: "A música é uma coisa muito fácil."
Foi em Moçambique, para onde a família se mudou em 1954 - "éramos pobres, fomos fazer pela vida, como muitos antes de nós" - que Eurico teve estas aulas de acordeão. Antes trabalhou como escriturário no Banco Nacional Ultramarino e explorou por conta própria o bar Vasco da Gama, em Porto Amélia (actual Pemba). Mas mais uma vez o pai não lhe fez a vida fácil. "Ele era do género impulsivo e gostava de beber. Quando estava com os copos arranjava distúrbios no meu bar e eu não estava para aturar aquilo." Cebolo mudou de emprego, foi para a Companhia Algodoeira Sagal trabalhar como agente fiscalizador de campo, treinando o acordeão nas horas vagas. "Houve alturas em que ensaiava 15 horas por dia." Mas a sua vida levaria mais um revés.
Um problema de saúde desconhecido leva-o a Lourenço Marques, onde os médicos identificam uma doença degenerativa, "uma daquelas que não perdoam". Ao contrário do que os médicos previram, Eurico não sucumbiu à doença e um novo diagnóstico apontou outra causa para o seu mal-estar: espondilite ancilosante, uma inflamação das articulações que não tem cura, mas pode ser tratada. O músico convenceu-se de que teria de viver com isto, mas desrespeitando os conselhos dos médicos - que recomendavam repouso - continuou a tocar.
Esteve na movida de Lourenço Marques, fez vários espectáculos no Pavilhão Oceânia, tocou nos clubes, ou "dancings", como lhe chama, Luso, Pinguim e Aquário. Teve uma banda de rock''n''roll chamada Os Vampiros e aos 26 anos partiu em digressão por Moçambique, África do Sul e Rodésia com o cantor Luís Piçarra.
Pelo meio, um breve mas memorável regresso à Europa para participar no Festival da Canção do Douro, uma competição ibérica para escolher a melhor canção dedicada ao rio. A vitória em 1962 e em 1965 fazem o prestígio e a conta bancária do jovem Eurico aumentar. "O prémio eram 12 contos e quinhentos, mas quando voltei para Lourenço Marques começaram a pagar-me cinco vezes mais. Afinal de contas era um músico premiado."
A década de 60 foi o período dourado da vida de Eurico Cebolo. É contratado pelo Rádio Clube de Lourenço Marques para compor duas músicas por semana, abre a Escola do Acordeão e uma canção sua é escolhida para os reclames da máquina de costura Oliva. "Onde quer que viva/Para costurar/A máquina Oliva/Terá seu lugar."
Por esta altura era o escritor de canções mais requisitado de Moçambique, tendo assinado um lote extremamente variado de temas. Escreveu passodobles para o toureiro Artur Cardoso nas vésperas das suas actuações em Espanha, as quatro letras e músicas do disco de inauguração do Estádio Salazar (actual Estádio da Machava), a composição de temas para o leite Bebé Holandês, o Chocol (bebida achocolatada), vinho Sovim e cervejas Reunidas.
Todos esta façanhas estavam devidamente compiladas numa colecção de recortes de jornais. Esses documentos, assim como toda a biblioteca de Eurico Cebolo, foram destruídos depois da mudança de regime em Moçambique - "diziam que era cultura de países estrangeiros e não era bem-vinda". A casa onde viveu foi ocupada e o músico nunca mais voltou a Lourenço Marques, actual Maputo. "Nem quero voltar, aquilo que me fizeram não se faz a ninguém", conclui. Mas não guarda rancores: "A certa altura enviei para lá um lote de livros de música porque o país precisava. Não cobrei nada. Foi uma chapada de luva branca: a cultura de países estrangeiros voltava a entrar."
Começar de novo
Antes do acidente na estrada e do incidente em Moçambique, em 1975, Eurico já tinha tratado de alugar um antigo armazém na Baixa. Sem dinheiro e ninguém para o apoiar, o mestre arregaça às mangas numa altura em que o mais corajoso dos homens teria baixado os braços. Pendurou à porta do edifício um letreiro que dizia: "Dão-se aulas de música" e ficou à espera. Os alunos não demoraram a chegar.
Na Baixa do Porto há mais de 35 anos, a Musicarte ocupa agora os números 80 e 82, emprega perto de uma dezena de pessoas e é uma das maiores e mais concorridas lojas do género no Porto. Cebolo diz que o negócio corre bem e desvenda um dos seus segredos: os livros. Não os manuais que o tornaram célebre, mas os outros.
"Maria Alice perdeu a mãe, tragicamente, e apaixona-se pelo filho da patroa, que a expulsa. Mais tarde é dada como morta no desastre ferroviário de Alcafache e o rapaz que a desonrou casa com a própria irmã." Esta é a sinopse de "Casei com a Minha Irmã", terceiro romance de uma série de dez editados pelo compositor desde 1975. Edições de autor, tal como os manuais de música, estas pérolas da ficção pulp portuguesa, em que consta ainda "A Prostituta Virgem" ou "Matavam as Freiras Grávidas", não estão à venda. Eurico Cebolo utiliza-os como chamariz para os clientes e oferece um exemplar autografado na compra de um ou vários instrumentos.
"Eu já escrevia umas histórias aos quadradinhos quando era miúdo, lá no colégio. Vendia-as a um miúdo mais rico chamado Franclin. Já morreu, coitado." A vocação de ficcionista é tão antiga como a de músico, mas os enredos das suas novelas parecem chocar quem está habituado à candura da colecção Mágica. "Eu baseio-me sempre em coisas que soube, ouvi dizer, vi ou vivi, nas aldeias do interior ou em África. Mas depois romantizo tudo e pinto com as minhas cores, porque não gosto que as histórias acabem mal." Títulos como "O Falo Perdido" ou "A Santa Assassina" desafiam a ideia de que por vezes a realidade supera a ficção. Mas Eurico Cebolo mantém-se firme. E dá um exemplo: "Tenho um rapaz que trabalha comigo que julgava que era filho único. Um dia vem a descobrir que o homem a quem chamava pai não era pai dele e que afinal tinha 30 e tal irmãos."
Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
Eurico Cebolo é um dos oradores da Red Bull Music Academy, no Porto. Vai falar para uma plateia várias décadas mais nova e junto a oradores como Dam Funk ou Tozé Brito. "É uma conversa sobre música, e sobre a minha vida. Bom, é mais sobre a minha vida." Poderia ser de outra maneira?
in i
Sunday, April 19, 2009
FRUCAR
A FRUCAR – COMÉRCIO DE FRUTAS, LDA tem sede em Carrazeda de Ansiães e tem por objecto o armazenamento e comércio de maçãs. Sendo uma organização de produtores visa concentrar a oferta para defender preços no estádio da produção das explorações de macieiras localizados no concelho.
Nascida em 1992 da necessidade de um grupo de 20 fruticultores se unir para escoar a produção, viria dois anos depois a construir um entreposto de armazenamento, embalamento e comercialização que lhe permite colocar directamente no mercado a produção dos associados e de outros fruticultores.
Desde logo as suas maiores preocupações foram também elevar a qualificação dos agricultores e levantar os padrões de qualidade e de nível alimentar dos seus produtos. Assim em 1996, a Direcção Geral de Protecção de Culturas reconheceu a FRUCAR como entidade capacitada para prestar apoio aos produtores de maçã, no âmbito do sistema de Protecção Integrada, sendo um ano depois reconhecida como entidade formadora. Criou nas suas instalações a CAGEST – Centro de Apoio Agrícola para prestar serviços de apoio à gestão das empresas agrícolas dos associados. Desde sempre prestou serviços de apoio técnico aos associados de forma a melhor o seu rendimento e a preservar o meio ambiente.
Actualmente a FRUCAR detém um espaço superior a um hectare repartidos pelas áreas de produção, escritórios e parque de estacionamento com uma produção a rondar as 4000 a 5000 toneladas de maçã por ano, num concelho em que são produzidas 10 000 a 15 000 toneladas.
A empresa possui quinze postos de trabalho permanentes e contribui para a criação de centenas de empregos sazonais, constituindo-se como uma das mais empregadora de um concelho pobre e continuamente despovoado. A sua função social alarga-se já que a empresa adquire também maçã a muitos produtores locais contribuindo para o escoamento do produto e para a dinamização da produção e da economia regional.
Nascida em 1992 da necessidade de um grupo de 20 fruticultores se unir para escoar a produção, viria dois anos depois a construir um entreposto de armazenamento, embalamento e comercialização que lhe permite colocar directamente no mercado a produção dos associados e de outros fruticultores.
Desde logo as suas maiores preocupações foram também elevar a qualificação dos agricultores e levantar os padrões de qualidade e de nível alimentar dos seus produtos. Assim em 1996, a Direcção Geral de Protecção de Culturas reconheceu a FRUCAR como entidade capacitada para prestar apoio aos produtores de maçã, no âmbito do sistema de Protecção Integrada, sendo um ano depois reconhecida como entidade formadora. Criou nas suas instalações a CAGEST – Centro de Apoio Agrícola para prestar serviços de apoio à gestão das empresas agrícolas dos associados. Desde sempre prestou serviços de apoio técnico aos associados de forma a melhor o seu rendimento e a preservar o meio ambiente.
Actualmente a FRUCAR detém um espaço superior a um hectare repartidos pelas áreas de produção, escritórios e parque de estacionamento com uma produção a rondar as 4000 a 5000 toneladas de maçã por ano, num concelho em que são produzidas 10 000 a 15 000 toneladas.
A empresa possui quinze postos de trabalho permanentes e contribui para a criação de centenas de empregos sazonais, constituindo-se como uma das mais empregadora de um concelho pobre e continuamente despovoado. A sua função social alarga-se já que a empresa adquire também maçã a muitos produtores locais contribuindo para o escoamento do produto e para a dinamização da produção e da economia regional.
Wednesday, April 18, 2007
Sobre o Paulo de Carvalho
Conheci o Manuel Paulo de Carvalho há uns trinta anos. Eram anos de fortes convicções políticas, de grupos barricados nas certezas ideológicas, dos grandes ideais. O Paulo trazia África nos olhos e na alma. Era uma nova mentalidade, feita de largos horizontes, fraterna, contraditória com o pequenez atávica carrazedense. Uma personalidade aberta à diferença, contagiante, entusiástica, afectuosa. No seu “Planalto” conseguiu congregar os diferentes tipos da sociedade de Carrazeda. Confraternizaram homens e mulheres de direita e esquerda, conservadores e progressistas, pobres, remediados e mais abastados, ainda que por vezes em espaços e tempos perfeitamente definidos. “Que grandes saudades meu irmão”! A noite era só para muito poucos com a tertúlia regada de “petiscos” e bebeduras. Uma escola de vida. Discutiram-se os problemas locais, a política, o futebol, usou-se a má-língua: Iniciaram-se grandes e heróicos projectos desde o futebol à rádio. Principiaram cumplicidades que perduraram nos anos. Quem quiser fazer história carrazedense das últimas décadas não poderá esquecer o “café Planalto” do Paulo.
O futebol, uma das paixões. O campeonato inter-aldeias foi um fenómeno de participação entusiástica das gentes do concelho. A seguir a reactivação do clube de futebol com recurso exclusivo a jogadores do concelho (um dos poucos momentos em que se jogou com amor à camisola); sobrevivendo com verbas exclusivas da venda dos bilhetes, sorteios, bailaricos (o de Fim-de-Ano foi um sucesso tão estrondoso como surpreendente). Depois o futebol de cinco. Dirigente e treinador contribui decisivamente para que logo no primeiro ano o Futebol Clube de Carrazeda suba à primeira divisão distrital. O último jogo da subida meteu Zíngaros e encheu o estádio (que grande festa pá!). Dirigente carola, financia lanches e transportes a expensas próprias. Treinador empenhado, alinhava tácticas em longas conversas que se prolongavam até altas horas. Recorda-se a frontalidade desportiva e tom paternal com que tratava todos desde o mais jovem ao já quase veterano, tanto confrontava abruptamente um atleta como o ia convencer a casa de que era fundamental na equipa.
O Pombal. Outra paixão. Um orgulho e um refúgio afectivo e telúrico. Os olhos brilham-lhe quando fala da sua associação, das termas, das suas gentes. É à aldeia que regressam as conversas que partilha e a ela volta nos momentos mais complicados.
A vida prega-nos grandes partidas e com ele foi pródiga. Numa terra sem grandes oportunidades, ele nunca deixou de procurar a sua: Teve vários negócios de restauração, foi patrão e empregado, emigrou, vendeu carros, foi desde agricultor a delegado de propaganda médica, tentando sempre de forma honesta ganhar a vida. Até que a vida lhe pregou uma grande rasteira. Quem conhece o Paulo sabe que ele não é de desistir. E se apenas precisar de uma pequena ajuda? E se ela depender de nós? Vamos proporcionar-lhe isso.
Um grande abraço Paulo!
José Alegre Mesquita
Abril de 2007
O futebol, uma das paixões. O campeonato inter-aldeias foi um fenómeno de participação entusiástica das gentes do concelho. A seguir a reactivação do clube de futebol com recurso exclusivo a jogadores do concelho (um dos poucos momentos em que se jogou com amor à camisola); sobrevivendo com verbas exclusivas da venda dos bilhetes, sorteios, bailaricos (o de Fim-de-Ano foi um sucesso tão estrondoso como surpreendente). Depois o futebol de cinco. Dirigente e treinador contribui decisivamente para que logo no primeiro ano o Futebol Clube de Carrazeda suba à primeira divisão distrital. O último jogo da subida meteu Zíngaros e encheu o estádio (que grande festa pá!). Dirigente carola, financia lanches e transportes a expensas próprias. Treinador empenhado, alinhava tácticas em longas conversas que se prolongavam até altas horas. Recorda-se a frontalidade desportiva e tom paternal com que tratava todos desde o mais jovem ao já quase veterano, tanto confrontava abruptamente um atleta como o ia convencer a casa de que era fundamental na equipa.
O Pombal. Outra paixão. Um orgulho e um refúgio afectivo e telúrico. Os olhos brilham-lhe quando fala da sua associação, das termas, das suas gentes. É à aldeia que regressam as conversas que partilha e a ela volta nos momentos mais complicados.
A vida prega-nos grandes partidas e com ele foi pródiga. Numa terra sem grandes oportunidades, ele nunca deixou de procurar a sua: Teve vários negócios de restauração, foi patrão e empregado, emigrou, vendeu carros, foi desde agricultor a delegado de propaganda médica, tentando sempre de forma honesta ganhar a vida. Até que a vida lhe pregou uma grande rasteira. Quem conhece o Paulo sabe que ele não é de desistir. E se apenas precisar de uma pequena ajuda? E se ela depender de nós? Vamos proporcionar-lhe isso.
Um grande abraço Paulo!
José Alegre Mesquita
Abril de 2007
Wednesday, December 13, 2006
P.e Virgílio e a celebração dos 90 anos de idade.
Noventa anos de idade e sessenta e seis de apostolado em Carrazeda de Ansiães foram motivo para uma celebração. O P.e Virgílio Cirne Vila-Velha marcou indelevelmente os crentes ou não do concelho. A sua vida parece-me uma linha recta de simplicidade, obediência e de serviço à Igreja, mais que aos seus paroquianos. Sem rasgos de iniciativa, não construiu obra, não arrostou contra as injustiças e para além do espiritual não olhou para o material dos seus paroquianos. Olha-se para trás e fica a simpatia e uma grande religiosidade. Será suficiente? Sobra o Mogo de Malta, a aldeia do seu coração, e aí sim existe uma obra que é o Centro Social e Paroquial, a sua menina dos olhos. O seu nome estará associado a esta construção e toda a obra desenvolvida pelo Centro. Como em todas as coisas da vida se a honra lhe será concedida na história da aldeia, ela deveria ser atribuída à pertinência e preserverança de três ou quatro filhos da terra, de que saliento uma grande senhora que apenas conheço como a "D. Fernandinha" que sendo solteira toda a gente conhece como dona.
Exemplos louváveis
Em 1994 três irmãos, naturais da aldeia de Beira Grande, da família Meireles, um enólogo, outro técnico agrícola e um outro militar, resolveram dinamizar a pequena exploração agrícola da família localizada em Beira Grande. Era um projecto inovador e arriscado que apostava no “saber fazer” e na qualidade das uvas da região.
Reestruturam a pequena Adega da Família, aproveitam os lagares para vinificar os tintos e apetrecham a adega com moderna tecnologia para a produção de brancos. O nome escolhido foi Grambeira (analogismo de Beira Grande). Os resultados foram rápidos. Na primeira colheita, 1995, no 1º Concurso da Casa do Douro conseguiram um primeiro lugar em brancos e um segundo em tintos, a partir de então os seus vinhos, nomeadamente o Grambeira Branco, têm conquistado um lugar de referência no mercado de vinhos nacional e até internacional. Angariados vários prémios dentro e fora das fronteiras, alcançaram sucesso e continuadamente têm dinamizado a empresa.
Em 1996 iniciam o processo de reestruturação das vinhas, com selecção de castas e plantação por talhões. Tem sido um processo muito lento e que desde então não tem parado. Em 1998, fazem novo investimento, constroem uma nova unidade destinada ao engarrafamento, controlo de qualidade e serviços administrativos, o que lhes permitiu controlar todo o processo de produção, desde a produção da uva ao engarrafamento.
Actualmente, e com o propósito de afinar alguns métodos de vinificação estão em última fase de construção uma nova Adega situada em Carrazeda de Ansiães, aproveitando toda a tecnologia existente na anterior, mas introduzindo novos conceitos de produção, a par, dos contínuos investimentos na viticultura. Pretendem assim paulatinamente continuar a melhorar a qualidade e desenvolver a vitivinicultura do concelho.
São exemplos destes que deverão ser incentivados, publicitados e apoiados e é por eles que passa também a requalificação de produtos, o investimento numa região tão necessitada. A capacidade de risco, aliada à inovação, ao gosto da nossa terra e ao espírito empreendedor que conseguíramos dar à volta à mediocridade e à desertificação que nos estrangula. São boas práticas que convém divulgar e multiplicar!
Reestruturam a pequena Adega da Família, aproveitam os lagares para vinificar os tintos e apetrecham a adega com moderna tecnologia para a produção de brancos. O nome escolhido foi Grambeira (analogismo de Beira Grande). Os resultados foram rápidos. Na primeira colheita, 1995, no 1º Concurso da Casa do Douro conseguiram um primeiro lugar em brancos e um segundo em tintos, a partir de então os seus vinhos, nomeadamente o Grambeira Branco, têm conquistado um lugar de referência no mercado de vinhos nacional e até internacional. Angariados vários prémios dentro e fora das fronteiras, alcançaram sucesso e continuadamente têm dinamizado a empresa.
Em 1996 iniciam o processo de reestruturação das vinhas, com selecção de castas e plantação por talhões. Tem sido um processo muito lento e que desde então não tem parado. Em 1998, fazem novo investimento, constroem uma nova unidade destinada ao engarrafamento, controlo de qualidade e serviços administrativos, o que lhes permitiu controlar todo o processo de produção, desde a produção da uva ao engarrafamento.
Actualmente, e com o propósito de afinar alguns métodos de vinificação estão em última fase de construção uma nova Adega situada em Carrazeda de Ansiães, aproveitando toda a tecnologia existente na anterior, mas introduzindo novos conceitos de produção, a par, dos contínuos investimentos na viticultura. Pretendem assim paulatinamente continuar a melhorar a qualidade e desenvolver a vitivinicultura do concelho.
São exemplos destes que deverão ser incentivados, publicitados e apoiados e é por eles que passa também a requalificação de produtos, o investimento numa região tão necessitada. A capacidade de risco, aliada à inovação, ao gosto da nossa terra e ao espírito empreendedor que conseguíramos dar à volta à mediocridade e à desertificação que nos estrangula. São boas práticas que convém divulgar e multiplicar!
A morte do Dr. Morais
Não serei a pessoa mais indicada, pela idade, muito desconhecimento do seu curriculum e jeito, para relevar a vida deste homem que foi uma referência importante e durante muitos anos na vida deste concelho.
No mínimo deve ser considerado uma figura “muito interessante”. Enredado nas redes do antigo regime, em que manteve alguns cargos importantes, no entanto, foi sempre um homem que tentou sair da mediocridade e através dos mais diversos gestos e obras remou contra a maré e iniciou projectos e práticas que o guindaram à notoriedade.
A sua obra quiçá mais meritória foi no campo do ensino. Fundador de um colégio privado (numa altura em que para estudar se ia para Bragança, Vila Real ou Porto), permitiu a muitos filhos desta terra iniciar um percurso escolar, que de outro modo não teriam conseguido principiar, e em consequência trilhar caminhos do saber que os projectaram para uma vida melhor.
No campo profissional estabeleceu inovações e práticas que atraíram muitos forasteiros e ajudaram a resolver alguns dos problemas de saúde do concelho. Lembro o tratamento controverso, quiçá pouco científico, mas famoso e frutuoso da “cura da dor ciática” que consistiria na destruição do nervo que levava a dor da coluna ao cérebro e que passava por detrás da orelha dos pacientes. Lembro a criação dos primeiros tratamentos dentários, pioneiros na região, a que também acorreram muitos naturais e forasteiros. Lembro a execução de pequenas cirurgias. O Dr. Morais a par do Dr. Alegria e do Dr. Simão constituiu uma tríade de médicos que serviram, algumas vezes com grande abnegação, mas sempre com empenho e tenacidade o concelho como não há memória e dificilmente se repetirá.
A par destas actividades ainda era agricultor e poeta. Que mais pode um homem desejar!?
Nos últimos anos de vida, todos o recordamos nas “secas” que nos pregava quando o encontrávamos na estrada ou ao volante nas ruas da vila. Absorto nas suas divagações, conduzia muito lentamente, impedia-nos a passagem, não largava o meio da estrada ou da rua por mais que lhe vociferássemos "impropérios". Apanhados na sua conversa “sem fim”, calma e conhecedora, educadamente tentávamos fugir-lhe, pois sabíamos que para ele as horas não contavam. Mas tudo lhe perdoámos.
Conseguiu manter-se lúcido e contestatário até quase ao fim dos dias com distribuição e afixação de frases e cartazes controversos, pondo em causa a prática da Casa do Douro, a condução dos destinos do concelho…
Credor de uma homenagem concelhia, faleceu sem que lha tivessem realizado. Houve uma tentativa protagonizada por um grupo de ex-alunos que esbarrou na sua teimosia, um dos seus conhecidos defeitos. Quando vejo atribuídos nomes a ruas e praças que nada nos dizem, enquanto carrazedenses, ou nada fizeram pela vila (casos de Sá Carneiro, Amaro da Costa, Gomes da Costa, Aquilino) seria justo perpetuar este homem com essa atribuição, ou então, porque não dar o seu nome à Escola Profissional?
Partiu, talvez, o último homem deste concelho a quem muitos ainda tiravam o chapéu por respeito e consideração.
Descanse em paz!
No mínimo deve ser considerado uma figura “muito interessante”. Enredado nas redes do antigo regime, em que manteve alguns cargos importantes, no entanto, foi sempre um homem que tentou sair da mediocridade e através dos mais diversos gestos e obras remou contra a maré e iniciou projectos e práticas que o guindaram à notoriedade.
A sua obra quiçá mais meritória foi no campo do ensino. Fundador de um colégio privado (numa altura em que para estudar se ia para Bragança, Vila Real ou Porto), permitiu a muitos filhos desta terra iniciar um percurso escolar, que de outro modo não teriam conseguido principiar, e em consequência trilhar caminhos do saber que os projectaram para uma vida melhor.
No campo profissional estabeleceu inovações e práticas que atraíram muitos forasteiros e ajudaram a resolver alguns dos problemas de saúde do concelho. Lembro o tratamento controverso, quiçá pouco científico, mas famoso e frutuoso da “cura da dor ciática” que consistiria na destruição do nervo que levava a dor da coluna ao cérebro e que passava por detrás da orelha dos pacientes. Lembro a criação dos primeiros tratamentos dentários, pioneiros na região, a que também acorreram muitos naturais e forasteiros. Lembro a execução de pequenas cirurgias. O Dr. Morais a par do Dr. Alegria e do Dr. Simão constituiu uma tríade de médicos que serviram, algumas vezes com grande abnegação, mas sempre com empenho e tenacidade o concelho como não há memória e dificilmente se repetirá.
A par destas actividades ainda era agricultor e poeta. Que mais pode um homem desejar!?
Nos últimos anos de vida, todos o recordamos nas “secas” que nos pregava quando o encontrávamos na estrada ou ao volante nas ruas da vila. Absorto nas suas divagações, conduzia muito lentamente, impedia-nos a passagem, não largava o meio da estrada ou da rua por mais que lhe vociferássemos "impropérios". Apanhados na sua conversa “sem fim”, calma e conhecedora, educadamente tentávamos fugir-lhe, pois sabíamos que para ele as horas não contavam. Mas tudo lhe perdoámos.
Conseguiu manter-se lúcido e contestatário até quase ao fim dos dias com distribuição e afixação de frases e cartazes controversos, pondo em causa a prática da Casa do Douro, a condução dos destinos do concelho…
Credor de uma homenagem concelhia, faleceu sem que lha tivessem realizado. Houve uma tentativa protagonizada por um grupo de ex-alunos que esbarrou na sua teimosia, um dos seus conhecidos defeitos. Quando vejo atribuídos nomes a ruas e praças que nada nos dizem, enquanto carrazedenses, ou nada fizeram pela vila (casos de Sá Carneiro, Amaro da Costa, Gomes da Costa, Aquilino) seria justo perpetuar este homem com essa atribuição, ou então, porque não dar o seu nome à Escola Profissional?
Partiu, talvez, o último homem deste concelho a quem muitos ainda tiravam o chapéu por respeito e consideração.
Descanse em paz!
Os meus Heróis
Este meu primeiro texto é dedicado a uma mulher. Trata-se de alguém que possivelmente não chegará a saber o que penso dela e o valor que dou à sua missão. Possivelmente não sabe ler, com tudo o que isso lhe terá trazido de inconveniência.
Tem como primeiro nome Piedade mas, não acredito que alguma vez tenha pedido piedade para ela. Numa época de grandes privações que aquela por que passou na sua vida activa, conseguiu parir 19 (dezanove) filhos. Conjuntamente com o seu marido de apelido Morais sustentou-os até crescerem e poderem voar. Hoje estes, dispersam-se pelo mundo seguindo o exemplo de trabalho dos pais caldeado pelo sacrifício porque todos passaram até á largada.
Sem recursos herdados foi apenas pelo esforço que brotou este exemplo de vida.Nas circunstâncias que se depreendem pergunta-se: que seria possível pedir mais! Ou por outras palavras, haverá ou caso parecido, de capacidade, de organização e de coragem! Não consta que tenha roubado. Não consta que tenha pedido. Não consta que tenha tido a sorte e a ventura do seu lado.
Eu que sou dado á reflexão faço este contraponto. Esta família, ao que trabalhou, se em vez de ter gasto as energias a sustentar tanto filho, tivesse amealhado dinheiro, teria hoje a maior fortuna. Seriam venerados pelos bajuladores, passeariam o seu cãozinho de luxo, pelo passeio ao fim da tarde, frequentariam a confeitaria na hora do chá, eram membros das associações filantrópicas, seriam convidados a segurar o pálio e eram com certeza considerados pelo poder.
A realidade é outra bem diferente. A riqueza que produziram parece não representar muito para o país que dela se aproveita.
Assim numa hora em que sei que a doença da Sra. Piedade Morais a tem praticamente retida em casa e embora desconheça em pormenor as circunstâncias em que tenta expurgar a doença, daqui vai a minha admiração pelo seu exemplo de dignidade e distinção entre os carrazedenses.
Hélder Carvalho
- Dr. Morais - Vida e obra -
Há pouco tempo desapareceu da nossa companhia uma pessoa que marcou décadas da vida do concelho de Carrazeda: o Dr. Morais.
A sua passagem pelo mundo divide-se em variadas facetas: - a de médico, a de político, a de empresário, a de agricultor e, por último, a de poeta.
Como médico, ele foi, a seu modo, uma espécie de derradeiro João Semana destas paragens e improvisador de soluções compagináveis com as circunstâncias temporais que foi dado viver.
Ele foi tudo: - parteiro, dentista, médico de clínica geral e de alguma cirurgia.
Ficou mesmo famoso pelo método usado para tirar a dor ciática: - queimar o nervo que se situa atrás da orelha. – O seu consultório não primava pela higiene ou pelos apetrechos mais modernos. Mas, seguramente, ninguém saía sem uma consulta cuidadosa e sem o remédio necessário.
Ele era, como médico, no seu tempo, o homem certo no lugar certo. Não havia qualquer dessintonia entre o seu modo de fazer medicina e o modo de vida das gentes que tratava.
Como político, antes do vinte e cinco de Abril, foi um elemento da situação. Depois do vinte e cinco de Abril, pugnou não digo pela reposição da ordem anterior mas sim na contestação da nova ordem política. Acreditava firmemente que a política seria para uma elite, devendo todos os outros apenas cumprirem as ordens ditada por essa elite. Pensava que só após a difusão generalizada da educação seria possível uma verdadeira democracia.
No sistema do anterior regime exerceu papel de proa a nível concelhio. Mas se nós aceitarmos duas correntes no sistema, uma em que o papel principal devia ser representado por uma elite conservadora, laudatória dos valores tradicionais e imobilista no plano económico e social, e outra em que a elite era sobretudo formada por elementos dinâmicos, desejosos do progresso económico e social, embora com o respeito dos valores tradicionais, então poderemos afirmar seguramente que o Dr. Morais era partidário desta segunda corrente.
A noção de nação não era estática, apenas seguidora das virtudes dos nossos antepassados e cultora de uma paz social e económica que não precisava de grandes mudanças para não ocasionar grandes sobressaltos, mas sim dinâmica, de um dinamismo que modernizasse a vida económica e social e desse ao povo uma vida melhor, sempre debaixo da orientação da União Nacional.
Pela sua acção, pelo seu irrequietismo, pode com certeza garantir-se que o Dr. Morais pugnava pela modernização do país.
Isso mesmo fica provado através da sua terceira faceta: - a de empreendedor.
O exemplo mais flagrante é o da construção por ele levado a cabo do edifício onda hoje funciona a Escola Profissional. Ele realmente, para conseguir um lugar onde os carrazedenses pudessem dar continuidade aos seus estudos, lutou contra tudo e todos, desde a burocracia às más vontades que se levantaram.
Para que melhor se pudesse aquilatar da sua determinação, ele próprio ajudava nos trabalhos concretos inerentes à edificação: - ele foi servente, trolha, pedreiro – num arregaçar de mangas que mostrava a toda a gente quão longe ia o seu querer. E a obra fez-se. E num tempo em que as coisas não eram nada fáceis.
Natural de Linhares, ao que julgo, o Dr. Morais teria que ser também agricultor. A par das outras actividades, ele dedicava-se ao trabalho do campo. E mais uma vez o fazia de forma empenhada, fazendo, como mais um seu elemento, parte integrante do grupo de pessoas que trabalhava a terra: - ele cavava, regava, mondava, podava. Tudo o que os outros faziam ele fazia, Mais uma vez estando assim em sintonia com as gentes que o rodeavam.
Mas o mais interessante de tudo é que as várias facetas andavam permanentemente interligadas: - no seu carro trazia instrumentos de médico, (estetoscópio), de política (apontamentos doutrinários), de empresário (utensílios de construção), de agricultor (enxada), tudo isto formando um todo pronto a ser utilizado ao longo do dia.
Tudo o atrás descrito já seria mais que suficiente para encher a vida de uma pessoa. No entanto, julgo que sem que nada o fizesse prever, o Dr. Morais apareceu-nos, por último, com a sua faceta mais sublime: - a de poeta.
Parece até que acabar em poeta é terminar ao arrepio de tudo o que antes tinha sido feito… ou talvez venha mostrar quão idealista foi em tudo aquilo a que se dedicou.
E se ele se tivesse limitado a ser um poeta vulgar, tosco, sem ideias, com rima forçada, ainda poderíamos aceitar. – Mas não: ele poetizou de forma superior, não acessível a principiantes.
Ele tem ideias, ele rima com facilidade e de formas diversas, os versos não saem forçados, podendo afirmar-se que ele nasceu mesmo poeta.
Foi durante muito tempo uma faceta desconhecida, que, quando surgiu, brotou forte, pujante, verdadeira. – Como explicar este fenómeno?
A mim só me ocorre uma explicação: – o seu cérebro nasceu já com o condão de versejar e estava à espera de uma oportunidade para se revelar; só que essa oportunidade, neste caso, só surgiu no fim da vida.
Por todas as suas facetas e, sobretudo, por esta última – a de poeta – que lhe permitiu sublimar alguns aspectos menos apreciáveis da sua personalidade, bem se pode dizer que o Dr. Morais irá constituir um paradigma para todos os seus conterrâneos.
João Lopes de Matos

